Conheça a história da professora Aparecida Fidelis Mazzer

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Conheça a história da professora Aparecida Fidelis Mazzer
Foto: Edson Dias e acervo pessoal

Conheça a história da professora Aparecida Fidelis Mazzer


Guerreira, professora de língua portuguesa, apaixonada por letras, querida por seus alunos e amada por todos os seus familiares

Protagonista de uma história repleta de emoções, Aparecida conta sua batalha para sair da zona rural, progredir em seus estudos, ingressar na vida acadêmica, construir uma bela história de amor familiar e ainda continuar a dar aulas para seus alunos queridos e amados.

Quando escolhi pelo jornalismo, um dos meus sonhos era o de ouvir pessoas com trajetórias de vidas marcantes e ter a chance de transmitir todo esse aprendizado em belas histórias para vários leitores, de maneira serena e emocionante. Ao conhecer Dona Cida, não tive dúvidas que estava à frente de uma mulher guerreira e que iria me passar toda essa emoção que tanto admiro e sonhava em relatar.

Ao me receber, ela já estava emocionada com todas as suas memórias mencionadas em fotos e lembranças. Dona Cida se recorda com grande carinho da sua infância na zona rural. Penúltima filha entre oito irmãos, adorava brincar pelo sítio, contar histórias e ensinar as crianças que moravam nas redondezas. Apaixonada pelos estudos, Dona Cida frequentava a escola na zona rural, e mais tarde, a pé, de bicicleta ou de charrete, passou a frequentar as escolas públicas na cidade de Cerquilho, e o curso do magistério na cidade de Tietê.
Lembrando-se de suas brincadeiras, dizia que criatividade não faltava, adorava brincar com objetos e com sua boneca de papelão e sabugo de milho. Os irmãos eram unidos e passavam horas se divertindo juntos pelas terras do sítio. Aos risos, ela também comenta de seus medos, como ir à escola sozinha no meio do canavial. O receio em ver arco-íris era um deles. Com carinho, o que mais marca a harmonia entre a família durante a infância era a reunião em todos os jantares, “Meus pais Manoel e Olga, meu tio Roque, meus sete irmãos e eu, nos reuníamos todas as noites, e antes do jantar, um dos meus irmãos tinha que puxar o terço. Era uma tradição familiar diária, cada dia era um que rezava”.

Quando se recorda de seu pai Manoel Fidelis da Cunha, a primeira história que vem a mente é sobre o alambique de pinga produtor da Caninha São Pedro, o primeiro a ser construído em Cerquilho e um dos mais conhecidos da região. Com orgulho, cita que o alambique começou de uma simples ideia do seu pai. “Como no sítio não havia água suficiente para resfriar a serpentina na produção da pinga, meu pai e meu tio foram até um córrego distante e abriram um riacho, com a enxada, para descer a água até o alambique; deu certo e a partir daí começaram as produções da aguardente”. Dona Cida comenta que todos os irmãos ajudavam em várias funções, desde fazer as embalagens até a distribuição feita por toda região, inclusive na capital. A procura pela pinga era grande e atribui todo esse sucesso pela coragem e simpatia de seu pai, que teve o privilégio de conhecer muitas pessoas e fazer grandes amizades.

Após sua infância, que ela considera um momento muito alegre em sua vida, Dona Cida resolveu progredir em seus estudos, e como era apaixonada por ensinar, escolheu pela profissão de professora, exatamente pela língua portuguesa, pela qual é fascinada, “Minha mãe sempre me disse que minha vontade de ensinar já se manifestava na infância. Como não sabia ainda ler, mas sabia rezar, reunia todas as crianças para ensinar as orações; era uma maneira de estar em meio a pessoas e transmitir conhecimentos”.

A única filha a cursar ensino superior, ao escolher sua profissão, conta como era sua rotina diária no curso de Letras em Itu na faculdade Nossa Senhora do Patrocínio, por onde esteve durante quatro anos. “Acordava bem cedo e ia para Tietê de ônibus. A caminho de Itu, minhas colegas de turma, Bete Gaiotto, Adelina Bengozi, Neide Vidotto e eu, pagávamos uma pessoa para nos levar até a faculdade”.

Ao se graduar, começaram a surgir grandes desafios e obstáculos em sua carreira. Dona Cida conta que passou por momentos complicados até se estabilizar como professora. “Percorri várias cidades, como ainda não havia concurso público, os recém-formados faziam inscrições para dar aula e iam sendo chamados. A primeira escola onde lecionei, EEPSG Comendador Emílio Romi, foi na cidade de Santa Bárbara d’Oeste. Nesse período morei em casa de família. Após um ano de trabalho, e 5 anos de namoro, em 1975, casei-me com Antonio Broca Mazzer, natural de Tietê. Criamos laços nesta cidade até nos mudarmos para Americana anos depois”.
Amante dos estudos e do ganho constante de conhecimentos, buscou no Faculdade Dom Bosco, sua extensão acadêmica no curso de Pedagogia.

Com muita emoção e com lágrimas em seu rosto, Dona Cida recorda de vários momentos difíceis no início da vida na cidade de Americana. Não ter escola nem classe fixa para lecionar se tornava uma dificuldade. “Eu era uma estranha para os professores que já estavam lá. Como era nova, sempre assumia o período noturno”.

Após o nascimento da sua filha mais velha Daniela, comenta outros momentos pelos quais enfrentou, “Havia dias que não tinha com quem deixar a Daniela para poder trabalhar. Muitas vezes deixei minha filha dormindo na sala do diretor”.

Ainda muito emocionada, Aparecida fala que teve que enfrentar seus medos e angústias ao retornar todos os dias tarde da noite para sua casa. Ao conseguir um emprego na região de Jundiaí, sua rotina começava às 6h da manhã e só terminava de madrugada, “Quando chegava à cidade de Cajamar, tinha que dar meu passe para o motorista levar para São Paulo, para que pudesse reservar minha passagem de volta para casa. Ás vezes ele esquecia, e eu via o ônibus indo embora e me deixando na Rodovia Anhanguera sozinha, durante a noite. Quando isso acontecia tinha que esperar o ônibus para ir a Campinas e de lá pegar outro ônibus para Americana. Era um transtorno e senti muito medo”.

Graças a perseverança conjugal, muito trabalho e fé em Deus, a situação começou a mudar. Para auxiliar na rotina familiar, recebeu a cerquilhense Cidinha Camargo, considerada uma irmã de coração e que mora em sua casa há 41 anos. Na ocasião, Dona Cida estava grávida da sua segunda filha, a Elaine. Narra com extrema gratidão, que Cidinha apareceu no momento certo. Ela passou a cuidar de suas filhas, e hoje em dia, cuida dos seus quatro netos, Elian Gabriel, Elen e Letícia, com a maior dedicação e carinho.

Retornando para sua cidade natal, Cerquilho, Aparecida lecionou em várias escolas e continua dando aulas até hoje, mesmo sendo aposentada há 18 anos. Considerando uma paixão eterna, ela se sente realizada e muito orgulhosa pelos seus 45 anos de carreira, ensinando a língua portuguesa para crianças, jovens e adultos.

Querida por seus alunos, ela se recorda aos risos de situações em que os estudantes fizeram singelas homenagens a ela. Uma delas, em especial, foi quando uma turma de alunos do terceiro ano do ensino médio da escola EEPSG Presidente Arthur da Silva Bernardes, tiveram a brilhante ideia de se despedir do ano letivo, presenteando a sua querida professora com uma bela serenata. “Em uma noite de verão, o grupo de alunos esteve em frente a minha casa, com um rádio e um violão e cantaram em bom tom a música ‘Canção da América’. Ao final da serenata, me presentearam com uma jaca, pois sabiam que eu gostava dessa fruta. Foi tão divertido! Toda vez que me recordo deste momento, sinto uma alegria muito grande”.

Com uma bela união entre o marido, filhos, genros e netos, ela fala com muito amor nos olhos sobre ter construído uma família carinhosa e exemplar. União e amor são as palavras que definem toda essa relação.

Casada há 43 anos, Aparecida conta que é muito feliz e realizada. Lembra-se de todos os momentos difíceis pelo qual passou e que a ajuda do marido foi primordial para vencer os obstáculos. Lado a lado, eles caminham juntos e transbordam esse amor para os filhos e netos que são a verdadeira razão de sua alegria constante.

Relata a satisfação em reencontrar seus alunos já profissionais atuantes na sociedade em diversas áreas, e ter feito parte da formação cidadã de cada um deles. “Foi uma alegria poder dar aulas para muitas pessoas, em especial para as minhas filhas, pois no final eu terminava sendo mãe para todos da classe (risos). E hoje dando aula para meus netos, é uma alegria multiplicada, uma satisfação enorme”.

Em relação a sonhos, Aparecida se considera uma mulher realizada, passou por contratempos sempre sendo otimista, “Se hoje foi um dia ruim, nada como um dia após o outro, pois amanhã será um dia melhor!”.

É objetiva em dizer que, com sua saída do sítio em busca de estudo para a realização de seus sonhos pessoais e profissionais, ela conseguiu uma carreira brilhante, uma legião de alunos que a admira e uma família amorosa que se orgulha de sua trajetória.

Afirma que “Escola é o lugar de construir relações e de fazer amigos”, e teve o privilégio de conquistar amizades com professores, coordenadores e diretores de excelência, momentos esses de grande importância em sua vida profissional.

Para deixar uma mensagem, Dona Cida agradece com ternura a todos os alunos que foram presentes em sua carreira, e diz que é muito feliz por ter feito parte na construção profissional de todos eles. “A vida é um livro. Ele pode ser grosso ou fino, mas está cheio de coisas boas, desafios e realizações em cada capítulo. Enfrentamos dificuldades, mas todos os dias viramos uma página, para que a história continue, até quando Deus quiser!” finaliza com um belo brilho nos olhos.

Texto publicado na Revista Fique em Evidência - Edição 83 - Junho/Julho 2018, escrito por Luana Andrade. Fotos: Edson Dias e acervo pessoal.

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