Escassez de dólares na Bolívia causa corrida bancária e medo de desestabilização

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A Bolívia enfrenta uma corrida bancária e cambial após as reservas de dólares do país diminuírem e chegarem a um nível crítico. Em fevereiro, o Banco Central do país divulgou que as reservas possuíam apenas US$ 372 milhões líquidos e US$ 3,5 bilhões brutos e tornou o cenário fiscal do país incerto. Desde então, o banco não divulgou nenhum novo número e causou preocupação entre investidores e cidadãos, que correm para sacar o dinheiro e causam longas filas no país.

O valor divulgado em fevereiro é insuficiente para a Bolívia cobrir três meses de importações, segundo uma reportagem do jornal Financial Times. O país foi rebaixado pela agência de classificação americana Fitch, que mede as perspectivas para investimento do país, para a categoria B-, com perspectiva negativa. Isso torna a Bolívia insegura para os investidores.

A agência citou o "aumento da incerteza sobre a capacidade das autoridades de administrar essa situação, bem como sobre sua gravidade, devido ao atraso contínuo na publicação dos dados das reservas internacionais" para justificar o rebaixamento.

O país enfrenta dificuldades de contratar empréstimos nos mercados internacionais desde o ano passado, quando o Fed e outros grandes bancos centrais começaram a aumentar as taxas de juros, aumentando o custo dos empréstimos.

Segundo analistas, a queda nas reservas cambiais do país são resultado do modelo econômico boliviano das duas últimas décadas, que se baseou na exportação de gás natural para os países vizinhos e na importação de diversos produtos. Entretanto, as reservas de gás diminuíram rapidamente e as importações de combustível cresceram, representando 11% do total de produtos importados em 2015 para 34% no ano passado, de acordo com a estimativa da agência de classificação S&P Global Ratings. Em 2030, a Bolívia deve importar mais combustível que exportar.

Diante da escassez de dólares, o Banco Central da Bolívia decidiu oferecer a venda de dólares diretamente ao público, após bolivianos reclamarem da dificuldade em encontrar a moeda em bancos e casas de câmbio. No domingo passado, 9, o banco central disse ter vendido US$ 24,1 milhões das reservas entre os dias 6 e 12 de março.

O presidente do banco central, Edwin Rojas, disse que os compradores de dólares foram "vítimas de um processo especulativo" e um comunicado de imprensa do banco afirmou que havia "satisfeito a demanda do público". No Twitter, o banco afirma que o país está estável.

Os bolivianos que correm aos bancos para sacar dólares temem uma crise fiscal e o retorno do passado de hiperinflação da década de 1980, quando a inflação anual chegou a um pico de 20.000%. Hoje, a inflação do país é de 2,6% o que a torna uma das taxas mais baixas do mundo - menos da metade da dos EUA, Reino Unido ou Alemanha -, mas o fim de uma paridade cambial desencadeia o medo entre bolivianos.

Economistas ouvidos pelo Financial Times afirmam que os problemas econômicos da Bolívia estão enraizados e precisam de medidas drásticas. "As reservas cambiais estão tão esgotadas que será muito difícil para a Bolívia evitar uma correção na taxa de câmbio e os controles cambiais", disse Ramiro Blazquez, chefe de pesquisa do BancTrust na vizinha Argentina, ao jornal.

O ministro da Fazenda boliviano, Marcelo Montenegro, afirmou no mês passado que o país precisa investir em campos de exploração e desenvolvimento de gás natural para reverter o quadro. O presidente Luis Arce planeja abrir sete novos campos este ano. "A economia boliviana está pagando o preço por não ter feito esse investimento agressivo (no passado)", disse Montenegro.

Arce também pressiona os parlamentares a derrubar uma lei que impede o governo de vender parte das 43 toneladas de ouro que o país detém em reservas. Hoje, o governo não tem permissão para converter reservas bloqueadas em ouro em dólares.

O governo também passou a cobrar preços mais altos pelo gás exportado, aproveitando os mercados globais apertados, e desenvolve biocombustíveis para tentar reverter a crise. Uma reportagem da Bloomberg cita que o governo de Arce também se volta para os depósitos de lítio do país, que é o maior do mundo. (COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS)

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